Um artigo de opinião assinado por Patrícia Couto, professora auxiliar da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade Católica Portuguesa, na data em que se assinala o Dia Mundial da Saúde Oral.
Artigo de opinião
"No Dia Mundial da Saúde Oral, é essencial reafirmar um princípio basilar: a saúde oral é um direito de todas as pessoas e um determinante fundamental da saúde pública global. Mas não basta afirmá-lo, pois facilmente verificamos que persistem, entre o discurso e a realidade, desigualdades profundas que afetam a população em geral e, de forma particularmente gravosa, as pessoas com deficiência.
É um facto indiscutível que as doenças orais continuam entre as condições mais prevalentes a nível global. Cáries não tratadas, gengivite e periodontite não são problemas meramente locais, apresentam associações consistentes com patologias sistémicas, como doença cardiovascular, diabetes e complicações respiratórias. Com frequência, esquecemo-nos de que a cavidade oral é uma parte integrante e importante do organismo e, por esse mesmo motivo, negligenciamo-la não raras vezes, comprometendo o equilíbrio global da saúde individual e coletiva. Para a população em geral, os impactos são claros: dor, limitação funcional, dificuldades na alimentação e na fonação, constrangimentos estéticos, perda de produtividade e aumento do absentismo laboral. A saúde oral influencia a autoestima, a interação social e até oportunidades profissionais. E, se esta realidade já é preocupante no plano da população em geral, torna-se ainda mais crítica no caso das pessoas com deficiência, particularmente intelectual.
Apesar das orientações internacionais defenderem a inclusão plena destes indivíduos nos serviços de saúde, subsistem barreiras físicas, económicas, formativas e comportamentais à sua implementação. O número reduzido de profissionais preparados para atender adequadamente pessoas com necessidades específicas, aliado a falhas na integração da saúde oral nos cuidados primários, reforça uma exclusão silenciosa, que acarreta, nas pessoas mais vulneráveis, danos em alguns casos irreparáveis. A estes inegáveis problemas, acresce ainda a escassez de dados epidemiológicos robustos que permitam avaliar, com rigor, o impacto real destas desigualdades.
Encontramo-nos, pois, perante um desafio coletivo, e torna-se cada vez mais premente olhar para a saúde oral como um indicador de justiça social. Não basta sensibilizar, é necessário investir em prevenção, formação especializada, programas públicos de apoio, e em políticas que garantam a todos um acesso equitativo a cuidados de saúde oral de qualidade.
Assinalar o Dia Mundial da Saúde Oral não pode reduzir-se à promoção de uma adequada higiene oral. É imperioso reconhecer que um sorriso saudável reflete dignidade, inclusão, e igualdade de oportunidades. Por isso, quando protegemos a saúde oral da população em geral e asseguramos atenção reforçada aos grupos mais vulneráveis, estamos a fortalecer não apenas indivíduos em particular, mas a própria sociedade e a sua coesão."