A formação em medicina dentária mudou nas últimas décadas, acompanhando a ciência, a tecnologia e as novas expectativas dos doentes. Entre simulação clínica, metodologias ativas e ligação à comunidade, o ensino procura antecipar a prática real e reforçar a confiança no cuidado oral. Um olhar sobre esta transformação por Nélio Veiga, docente e coordenador do mestrado integrado em medicina dentária da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade Católica Portuguesa.
A formação em medicina dentária tem atravessado, nas últimas décadas, uma transformação profunda, impulsionada pela evolução científica e tecnológica, bem como pelas crescentes exigências sociais em saúde oral. Neste contexto, os modelos contemporâneos de ensino em medicina dentária têm vindo a afirmar abordagens pedagógicas distintivas, centradas na inovação educativa, na integração entre ensino, investigação e responsabilidade social e na formação integral do futuro médico dentista.[Nélio Veiga, docente e coordenador do mestrado integrado em medicina dentária da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade Católica Portuguesa.]
Nélio Veiga, docente e coordenador do mestrado integrado em medicina dentária da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade Católica Portuguesa.Desde o início do século XXI, a aposta passou progressivamente por um ensino interdisciplinar, eticamente orientado e centrado no paciente. Mais do que o percurso histórico em si, é na evolução contínua dos modelos educativos que reside hoje a principal marca diferenciadora da formação em medicina dentária. A adaptação ao Processo de Bolonha, a consolidação de metodologias ativas de aprendizagem e a integração precoce da prática clínica redefiniram o processo formativo, aproximando-o das exigências reais da profissão e dos contextos clínicos contemporâneos.
Desde o início do século XXI, a aposta passou progressivamente por um ensino interdisciplinar, eticamente orientado e centrado no paciente.
A maturação dos projetos educativos ao longo dos últimos anos permitiu o reforço dos corpos docentes, o aprofundamento da articulação entre áreas científicas e clínicas e a implementação de modelos organizacionais orientados para a qualidade pedagógica, a inovação curricular e a sustentabilidade. Esta evolução traduziu-se na consolidação de identidades formativas próprias, sustentadas na excelência académica, na proximidade ao estudante e na capacidade de adaptação a contextos profissionais e sociais em permanente transformação.
Na minha experiência, a inovação pedagógica assumiu, neste quadro, um papel central. A formação passou a assentar numa combinação integrada de metodologias ativas, ferramentas digitais avançadas e tecnologias de simulação clínica e pré-clínica.
A simulação, incluindo simuladores hápticos, ambientes digitais de treino, realidade aumentada e fluxos clínicos simulados, constitui hoje um eixo estruturante do ensino, permitindo ao estudante desenvolver competências técnicas, raciocínio clínico, segurança e tomada de decisão em ambientes controlados e progressivos. Esta abordagem complementa a prática clínica real e acompanha o estudante ao longo de todo o percurso formativo, promovendo uma aprendizagem segura, personalizada e centrada no desenvolvimento de competências.
A simulação, incluindo simuladores hápticos, ambientes digitais de treino, realidade aumentada e fluxos clínicos simulados, constitui hoje um eixo estruturante do ensino.
Para o paciente, esta transformação no ensino traduz-se em algo muito concreto: segurança e confiança. Antes mesmo de se sentar frente a um paciente real, o futuro médico dentista já repetiu dezenas de vezes os mesmos procedimentos em ambientes simulados, treinando decisões, erros e correções num contexto controlado. Quando chega ao consultório, não está a “experimentar”, mas sim a aplicar competências consolidadas. Isso significa consultas mais seguras, profissionais mais bem preparados e uma relação de confiança que começa muito antes do primeiro sorriso trocado na cadeira do médico dentista.
Antes mesmo de se sentar frente a um paciente real, o futuro médico dentista já repetiu dezenas de vezes os mesmos procedimentos em ambientes simulados.
A ligação à comunidade constitui outro pilar essencial destes modelos formativos. Projetos comunitários, de aprendizagem-serviço e de promoção da saúde oral em populações vulneráveis integram-se no currículo como contextos privilegiados de aprendizagem experiencial, reforçando a dimensão humanista da formação e o compromisso com o bem comum. Em paralelo, a aposta na investigação aplicada e na internacionalização assegura uma formação alinhada com os padrões europeus e internacionais, aberta aos desafios globais da profissão.
A aposta na investigação aplicada e na internacionalização assegura uma formação alinhada com os padrões europeus e internacionais.
A formação em medicina dentária afirma-se, assim, como orientada para o futuro: inovadora, tecnologicamente avançada e socialmente responsável. Mais do que formar profissionais tecnicamente competentes, estes modelos educativos procuram formar médicos dentistas conscientes, éticos e preparados para integrar ciência, tecnologia e humanismo na transformação da saúde oral, à escala local e global.
Ensinar para transformar: a medicina dentária em evolução
Thursday, March 12, 2026 - 15:40
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https://sapo.pt/artigo/ensinar-para-transformar-a-medicina-dentaria-em-evolucao-699479c6e82b5cda61b8cc48
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